Violência
nas Escolas
Autor: Ilanud
Os tipos de violência
Alunos X Professores
Armas e drogas
O combate à violência escolar - O papel da escola, da polícia
e da comunidade
Iniciativas de sucesso
“ Um estudante de 17 anos, epiléptico e hipertenso, foi
espancado na manhã de terça-feira por pelo menos cinco
jovens na porta da Escola Estadual Professora Eugênia Vilhena
de Moraes, na Vila Virgínia, periferia de Ribeirão Preto
(SP), por ter se recusado a dar R$ 10 aos agressores. Dois deles, reconhecidos
pela vítima, estudam no mesmo colégio. O estudante, que
cursa o primeiro ano do Ensino Médio, teve traumatismo craniano
e ficou internado...”
Folha de São
Paulo, julho de 2005
A violência e as violações dos direitos humanos
no Brasil, sobretudo as que, de alguma forma, comprometem a vida e a
integridade física do indivíduo, estão entre as
grandes preocupações das populações das
grandes cidades.
Hoje, a violência
vivida nos grandes centros e estampada nas principais manchetes dos
veículos de comunicação manifesta-se por meio de
diversos agentes e sob as mais diferentes formas.
Dentre os números
da violência urbana, policial e familiar, o Brasil e muitos outros
países enfrentam também as estatísticas da violência
escolar, que acontece no interior das instituições de
ensino.
Esse tipo de violência,
quando põe em risco a ordem, a motivação, a satisfação
e as expectativas dos alunos e do corpo docente, tem efeitos graves
sobre as escolas, contribuindo para o insucesso dos propósitos
e objetivos da educação, do ensino e do aprendizado.
Como acontece com
a sociedade, a escola não está imune à violência
social e acaba sendo um espelho dessa realidade.
Diante de um ambiente
conturbado e vulnerável, a escola perde suas características
e funções essenciais de educação, socialização,
promoção da cidadania e do desenvolvimento pessoal.
Os tipos de violência
“É
o cara que se você esbarrar nele, você pode jurar que já
está morto. Olha, mas morto mesmo! Teve uma ‘treta’
(briga) aqui e cataram a pessoa e esfregaram a cara dele ali no muro,
desses de pedra sabe? Esfregaram e rasgaram a cara dele todinha. Jogaram
ele nos espinhos.”
Depoimento de um
aluno no livro Violência nas Escolas, UNESCO, 2002
Atualmente, a violência escolar se expressa de muitas maneiras,
incorporando-se à rotina da instituição e assumindo
proporções preocupantes. Segundo a pesquisadora Miriam
Abramovay, a violência pode ser associada a três dimensões:
a degradação do ambiente escolar, a violência que
se origina de fora para dentro das escolas e aquela gerada por componentes
internos dessas instituições.
A violência,
assim, pode traduzir-se em ações diversas que vão
desde a agressão física, o furto, o roubo (em geral contra
o patrimônio da própria escola), o porte de armas, o tráfico
de drogas, até ofensas verbais, aparentemente menos graves, mas
que revelam atitudes discriminatórias, segregatórias e
humilhatórias, cujas conseqüências são dificilmente
mensuradas ou percebidas. Este último caso, bastante freqüente
nas escolas, é conhecido como Bullying.
Alunos vítimas
do Bullying são pessoas com dificuldades para reagir diante de
situações agressivas e que acabam retraindo-se
O termo em inglês compreende todas as formas de atitudes agressivas,
intencionais e repetidas, que ocorrem sem motivação evidente,
adotadas por um ou mais estudantes contra um ou mais alunos, causando
dor e angústia, sendo executadas dentro de uma relação
desigual de poder.
A existência
do Bullying nas escolas tem sido tema reiteradamente investigado nos
últimos anos no exterior e no Brasil. Alunos vítimas do
Bullying, geralmente, são pessoas com dificuldades para reagir
diante de situações agressivas e que acabam retraindo-se.
Isto pode contribuir para a evasão escolar, já que, muitas
vezes, não conseguem suportar a pressão a que são
submetidos.
Segundo a pesquisa
“Violência nas Escolas”, realizada pela UNESCO em
escolas de todo Brasil, a violência física aparece em primeiro
lugar, atingindo alunos, professores e funcionários em geral.
Em segundo lugar está a violência contra a propriedade
e, por último, a violência verbal.
O estudo afirma,
ainda, que a violência física acontece com grande regularidade
em algumas capitais. Os maiores percentuais de vitimização
estão em São Paulo e no Distrito Federal.
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Alunos X Professores
“Agredida
moralmente e fisicamente e ainda ter de mudar de vida por causa de um
estudante. É essa a situação que uma professora
de 26 anos diz estar enfrentando desde o dia 18, quando levou socos
no rosto e no pescoço de um de seus alunos, um adolescente de
15 anos. Ele cursava a 8ª série do Ensino Fundamental em
uma escola pública de Suzano, na Grande São Paulo.”
Globo On Line, 30
de junho de 2007
Na convivência escolar, assim como os colegas, o professor também
é um dos personagens de uma relação que, nem sempre,
se dá de forma cordial. O Sindicato dos Professores do Ensino
Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) e o Dieese, fizeram
uma pesquisa com 684 professores em dezembro de 2006, que revela que
87% deles conhecem algum caso de violência dentro de unidades
escolares. Outros 70% afirmam conhecer casos de tráfico de drogas
no ambiente escolar e 67% de consumo pelos alunos. Entre os tipos mais
comuns de violência, a agressão física foi citada
por 82% dos entrevistados como rotineira, só perdendo para agressão
verbal (96%) e atos de vandalismo (88,5%).
Com esses dados
é possível entender que a situação do professor
em sala de aula não é das mais confortáveis e,
em muitas vezes, nem mesmo segura.
A relação
professor-aluno está vinculada à disponibilidade de diálogo
Contudo, segundo a pesquisa da UNESCO já mencionada, muitos alunos
entrevistados afirmam que o que determina um bom relacionamento com
o professor é o tratamento que esse dispensa à sala, desde
o primeiro dia de aula. Em vários discursos apresentados na publicação
da pesquisa é possível perceber que a relação
professor-aluno está vinculada à disponibilidade de diálogo.
A falta de comunicação dos alunos com os professores ou
com os demais membros do corpo técnico-pedagógico da escola
os desestimula e os distancia dos propósitos educativos, afetando,
muitas vezes, sua auto-estima.
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Armas e drogas
“Uma estudante
de 15 anos foi baleada na manhã desta segunda-feira, 12, no horário
de aula, no pátio da Escola Estadual Almirante Barroso, em Vitória.
Atingida em uma das pernas, L. S foi internada no Hospital São
Lucas.”
O Estado de São
Paulo, 5 de março de 2007
Se o porte de arma e o consumo de drogas não podem ser tomados
como causas exclusivas da violência, eles são, sem dúvida,
elementos potencializadores.
Segundo a pesquisa
O dia-a-dia na vida das escolas, realizada pelo ILANUD e pelo Instituto
Sou da Paz em 1999, as armas nas escolas não são utilizadas
para assaltos, nem mesmo para defesa pessoal. Na maioria dos casos,
os alunos as levam para a escola para impor respeito, intimidar adversários,
impressionar meninas ou colegas.
O estudo Cotidiano
das Escolas: Entre Violências aponta que 35% dos alunos (585 mil
estudantes) e 29% dos adultos já viram algum tipo de arma na
escola. As armas brancas (facas, canivetes, punhais etc) são
as mais comuns. Ainda assim, as armas de fogo têm uma forte presença
no ambiente escolar. Dos 35% dos estudantes, 12%, mais de 204 mil, já
viram uma arma de fogo no colégio. Esse número cai para
10% quando a pergunta é feita para um adulto.
Em relação
às drogas, os alunos, em geral, consomem as consideradas mais
leves, principalmente a maconha. De acordo com a pesquisa O dia-a-dia
na vida das escolas - ILANUD/Instituto Sou da Paz, 1999, o uso de drogas
– incluindo cigarro e álcool –, pode fazer crescer
as transgressões e a vitimização dos estudantes,
no interior da escola, o que se reproduz na sociedade em geral.
O consumo pode contribuir,
por exemplo, para o aumento no número de furtos ou a extorsão,
por parte dos alunos viciados, ou estimular a formação
e a rivalidade entre gangues juvenis, aumentar a circulação
de armas e elevar de modo geral a insegurança no ambiente escolar.
Ou seja, quanto maior a freqüência do consumo de drogas,
maior a tendência a transgredir as normas e envolver-se com a
violência.
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O combate à
violência escolar - O papel da escola, da polícia e da
comunidade
“A polícia
prendeu na quarta-feira, 8, dois homens e uma mulher acusados de vender
drogas para estudantes de escolas da região da favela do Heliópolis,
a maior de São Paulo, na zona sul da cidade. Foram apreendidos
13.750 papelotes de cocaína, sete mil pedras de crack e 1,1 mil
porções de maconha prontos para a venda. Além da
droga embalada, o Denarc apreendeu ainda 11 quilos de maconha, mais
pedras de crack e porções de cocaína que seriam
preparadas para a distribuição.”
O Estado de São
Paulo, 09 agosto de 2007
Reverter um histórico de violência requer iniciativas em
vários níveis e de diferentes complexidades. Uma das ações
que cabe à escola é o exercício do bom relacionamento
e o cultivo da paz no ambiente.
A polícia
também tem um papel importante, porém subsidiário,
dentro das escolas, pois o que acontece no interior das instituições
de ensino é de responsabilidade primordial das autoridades educacionais.
Uma das ações
que cabe à escola é o exercício do bom relacionamento
e o cultivo da paz no ambiente
Quando, em situações excepcionais, for necessária
a atuação policial, este policiamento deve ter o caráter
comunitário e fundar todas as ações nos princípios
da proteção integral e da dignidade da pessoa humana.
A polícia deve, assim, ter uma ação prioritariamente
educativa e preventiva e, somente em casos extremos, atuar de forma
repressiva, porém não abusiva, para conter determinas
situações de violência.
É importante
ainda que, para prevenir e combater a violência, as escolas sejam
rigorosas no cumprimento de suas responsabilidades em relação
aos alunos e à comunidade; a construção de regras
de convivência e disciplinares deve ser feita pela própria
comunidade escolar; o protagonismo juvenil deve ser estimulado de modo
que os estudantes construam suas próprias alternativas para a
redução da violência; a escola deve discutir os
problemas da comunidade com os seus membros: pais e alunos, lideranças
locais (polícia local, organizações não-governamentais,
igrejas, comerciantes), entre outros. Deve-se evitar a suspeição
generalizada e o uso de medidas repressivas, sendo fundamental que não
haja discriminação a jovens com determinadas características
sociais, raciais, familiares, ou mesmo com histórico de atos
infracionais (Fonte: SPOSATO, Karyna. Polícia e Escola: Uma reflexão
compartilhada em busca de paz nas escolas. Revista Ilanud nº 18,
“Paz nas Escolas”. Ilanud/Instituto Sou da Paz. 2001.).
No entanto, é importante acrescentar que muitas situações
de violência nas escolas são absurdas e devem ser estancadas.
Por isso, a medida repressiva – não abusiva – é
uma das funções da polícia que deve ser aplicada,
caso a situação exija.
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Iniciativas de sucesso
“Duas escolas
públicas em bairros com altos índices de violência,
uma no Rio e outra em São Paulo, conseguiram encontrar soluções
para evitar que a indisciplina gerasse mais violência. Em ambos
os casos, a solução adotada foi a criação
de canais de diálogo.”
Folha de São
Paulo, 1º de maio de 2006
A sociedade também se mobiliza na forma de campanhas e projetos
para combater a violência escolar. O Projeto Grêmio em Forma
, do Instituto Sou da Paz, é uma iniciativa de política
de prevenção à violência que atua em escolas
públicas, incentivando e assessorando a formação
de Grêmios Estudantis.
O projeto parte
da importância do papel desempenhado pelos grêmios estudantis
na construção de uma escola democrática e na formação
de jovens cidadãos ativos e responsáveis, capazes de atuar
politicamente por seus interesses. Com isso, pretende-se que os estudantes
sejam sensibilizados e capacitados a resolver os conflitos de forma
pacífica e não pelo uso da força e da violência.
Uma outra experiência
do Instituto Sou da Paz, em parceria com o Ilanud, a Polícia
Militar de São Paulo e a Secretaria Estadual de Educação
de São Paulo, é o Projeto Polícia Escola. A iniciativa,
realizada em 2001, propôs d esenvolver uma metodologia de trabalho
e um material didático para o treinamento de policiais envolvidos
em programas de construção da paz nas escolas. O objetivo
do projeto foi proporcionar um maior diálogo entre os atores
escolares e os que cuidam de sua segurança, de modo que a atuação
da polícia fosse pautada pelos princípios do policiamento
comunitário, ou seja, com respeito aos direitos humanos, participação
da comunidade e com ênfase na prevenção.
O Programa Abrindo
Espaços: Educação e Cultura para a Paz, conhecido
como Escola da Família, é um projeto de inclusão
social idealizado pela UNESCO e que já se tornou política
pública pelo Ministério da Educação (MEC).
Estudantes sensibilizados
e capacitados a resolver os conflitos de forma pacífica e não
pelo uso da força e da violência
Implantada desde 2003, a experiência consiste na abertura de escolas
aos sábados e domingos e na disponibilização de
atividades de cultura, arte, esporte e lazer para alunos, pais e comunidade.
São desenvolvidas oficinas e ações de estímulo
à expressão oral, artística, corporal além
de reforço escolar, incentivo à convivência, sociabilidade
e cidadania, numa perspectiva de disseminação de uma cultura
de não-violência e de promoção da cidadania
de adolescentes, jovens e da comunidade escolar.
Executado em parceria
com as Secretarias de Educação , a iniciativa vem sendo
desenvolvida, com sucesso, nos estados de Pernambuco, Bahia, Rio de
Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Piauí,
além de ter sido recentemente iniciada nos Estados de Sergipe
e Santa Catarina e no município de Curitiba. São mais
de 6 mil escolas públicas participantes em todo o País,
gerando benefícios para mais de 7 milhões de pessoas,
entre crianças, adolescentes, jovens e adultos. Nesses Estados,
o acesso às atividades esportivas e de lazer tem contribuído
para a redução dos índices de criminalidade entre
os jovens e para a sua inserção social. Em Sergipe, estava
prevista a abertura de mais dez escolas em agosto e mais 61 instituições
de ensino até o final de 2007.
Uma pesquisa realizada
no Estado de São Paulo mostrou que, por conta dessa iniciativa,
a indisciplina em sala de aula diminuiu 26,4%. A criminalidade dentro
das unidades e no entorno caiu cerca de 20%.
Experiências
como estas mostram que há como reverter os índices da
violência escolar. Fortalecer a comunidade e promover sua participação
social e política pode ser o primeiro passo na resolução
de muitos conflitos. A participação dos jovens na comunidade,
o seu envolvimento nas ações e discussões acerca
da violência constitui um alicerce fundamental de qualquer política
que vise mobilizar e integrar a comunidade, bem como criar importantes
mecanismos de prevenção à violência e combate
à criminalidade na escola e em toda sociedade.
Fonte: Site Risolidaria