Apesar de atingir muitas escolas,
bullying tem solução
Sylvia Leal, ex-editora da revista Pais
e Filhos, é Jornalista Amiga da Criança desde 1997.
Durante
o desenvolvimento, as crianças atravessam fases de insegurança
e frustrações e podem reagir demonstrando certa agressividade.
Eventualmente a expressam por meio de beliscões, puxão
de cabelos e ameaças nos corredores e salas de aulas dos colégios.
Se estas cenas se tornam freqüentes, é um sinal de alerta
trata-se do fenômeno chamado bullying, palavra inglesa usada em
todo o mundo para designar atos de violência repetitivos e intencionais
praticados por um ou mais alunos contra outro(s). Um tema que requer
a pronta intervenção de estudantes, professores e pais.
Pesquisa
realizada pela Associação Brasileira Multiprofissional
de Apoio à Infância e à Adolescência (Abrapia),
em 2002, envolvendo cerca de 5.800 estudantes de 5ª a 8ª séries
no município do Rio de Janeiro, revelou que 40,5% dos alunos
estiveram envolvidos, seja como autores ou como alvos, em atos considerados
agressivos. Segundo o estudo, as razões que levam a esta estatística
são nítidas. Além de uma simples descarga de emoções,
crianças e adolescentes hoje reproduzem, junto aos colegas, a
violência da qual são vítimas ou pelo menos espectadoras.
Nesse contexto, a escola é apontada como o principal cenário
de intimidações, agressões, humilhações,
assédios, difamações, apelidos, isolamento, dentre
outros comportamentos agressivos.
Segundo os especialistas,
o preço a pagar é alto. "As crianças que já
sofreram qualquer forma de bullying, em geral, demonstram estresse e
angústia. Não raro mergulham em profunda depressão
e alimentam pensamentos suicidas. Por sua vez, o autor da agressão
corre o risco de perpetuar este comportamento, tornando-se delinqüente
e marginalizado. Todos os alunos, até mesmo os não envolvidos,
costumam ser afetados, reagindo com desatenção, insegurança
e medo", explica o médico Aramis Lopes, membro da comissão
técnico-científica do Programa de Redução
do Comportamento Agressivo entre Estudantes da Abrapia.
Na década de 90, foram realizadas importantes pesquisas na Inglaterra,
na Noruega, na Espanha, no Canadá e em Portugal, que se tornaram
países pioneiros nas ações antibullying, consideradas
fundamentais pela Organização Mundial de Saúde
(OMS). Os resultados são animadores. Por meio de uma campanha
de âmbito nacional, por exemplo, a Noruega conseguiu reduzir os
casos de violência
"Algumas escolas já estão desenvolvendo suas estratégias
de forma independente, o que se justifica, uma vez que o problema é
complexo e de causas múltiplas."
nas escolas em cerca de 50%.
No Brasil, segundo
Aramis Lopes, o assunto só tomou vulto a partir de 2004 quando
relatos de ocorrência do fenômeno e notícias sobre
programas de combate de outros países vieram a público.
Para solucionar o problema, há ainda muito a ser feito. "Algumas
escolas já estão desenvolvendo suas estratégias
de forma independente, o que se justifica, uma vez que o problema é
complexo e de causas múltiplas. No entanto, desconhecemos a existência
de qualquer programa mais amplo sendo implementado pelas secretarias
estaduais ou municipais de educação", acrescenta
o médico.
Consultada sobre
o assunto, a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização
e Diversidade (SECAD), do Ministério da Educação,
assume não ter um programa antibullying específico. Mas,
segundo o órgão, existem políticas para a prevenção
do racismo, da homofobia, da discriminação de gênero
e regional nas escolas. Para subsidiar os professores a não cometer
nem deixar que seus alunos cometam estes tipos de violência, é
desenvolvido um trabalho de capacitação em parceria com
as secretarias municipais e estaduais de educação e ONGs.
São realizados cursos e ciclos de palestras com a utilização
de cartilhas, vídeos, sites e outros materiais didáticos.
Se ainda há
muito a fazer, alguns passos importantes já foram dados e servem
de modelo. O Programa Educar para a Paz, elaborado pela professora Cleo
Fante, é um dos que merecem destaque. Doutora em Ciências
da Educação pela Universidade de Ilhas Baleares (Espanha)
e pesquisadora do tema, ela desenvolveu o projeto entre agosto de 2002
e dezembro de 2003, na Escola Municipal Luiz Jacob, colégio de
Ensino Fundamental localizado na periferia de São José
do Rio Preto (SP). Estrategicamente situado entre duas rodovias, o bairro
onde fica a escola se transformou em reduto do tráfico de drogas
e de extrema violência.
Quem fala com entusiasmo
da experiência é Corintha Medeiros, diretora da escola
na época. "Havia 495 alunos (de 1ª a 8ª séries)
e começou a ser detectado um aumento dos casos que os autores
franceses chamam de 'incivilidade' e os ingleses de 'bullying'. Na verdade,
jamais tivemos notícias de casos de homicídio ou assalto
em nossas dependências, porém sabíamos que alguns
alunos e ex-alunos iam para a Febem, por infrações cometidas
fora dos muros da escola", lembra.
Para subsidiar os
professores a não cometer nem deixar que seus alunos cometam
violências, é desenvolvido um trabalho de capacitação
A professora Corintha revela que a redução do problema
foi possível com o auxílio das técnicas e da metodologia
sistematizadas no livro Fenômeno Bullying: como prevenir a violência
nas escolas e educar para a paz, escrito por Cleo Fante. "Contando
com o envolvimento de professores, funcionários, pais, alunos
e corpo diretivo conseguimos diminuir os casos de violência, que
antes afetavam 66% dos alunos, para o patamar tolerável de 4%,
entre 2002 e 2003", afirma.
O Programa Educar
para a Paz é fundamentado em princípios de solidariedade,
tolerância e respeito às diferenças. Estuda-se a
possibilidade de sua implantação em várias escolas
particulares de todo o Brasil. Assim como nos colégios da rede
pública, nestas acontecem casos de violência contra os
colegas, os professores e até o patrimônio escolar é
dilapidado, sob um tipo de visão muito comum entre crianças
e jovens de hoje: "posso destruir porque estou pagando".
Uma das entusiastas
da idéia é a presidente do Sindicato dos Estabelecimentos
Particulares de Ensino do Distrito Federal (Sinepe), professora Amábile
Pacios. Ela defende a necessidade urgente de tornar os programas antibullying
uma política pública e de levar a discussão não
só a algumas, mas a todas as escolas do País. "A
violência tem caráter epidêmico. Isto significa que
se não tratarmos o assunto com a atenção merecida,
nós seremos atingidos por ela, de uma forma ou de outra",
alerta.
Publicado originalmente
no site Risolidária.