Mais
cidadãos, menos violência
José Carlos Sturza de Moraes*
Há muito
temos a certeza de ter deixado a insegurança dos conceitos e
das teorias e encontrado a insegurança do real. Certeza manifesta
nos noticiários e nos relatos de pessoas de nossas relações.
Tendo em vista essa realidade que tem se presentificado, creio que é
hora de sairmos do esconderijo chamado cidadão comum. Pois, por
trás do geralmente auto-adjetivo de cidadão comum esconde-se
a uma desculpa e uma acusação; a desculpa de não
se implicar com as situações que se critica e a acusação
a outros, normalmente indefinidos, pelos males porque se passa.
A postura do cidadão
comum longe de inócua, é cúmplice ativa de processos
vários que levam, por exemplo, ao estado de violência e
insegurança porque passamos. Embora num primeiro momento assemelhe-se
com uma declaração de baixa-auto-estima ou menos-valia,
na verdade expressa um suposto lugar de respeito e seriedade, que não
se macula com os acontecimentos mundanos criticados. Talvez seja hora
de nos tornarmos mais cidadãos. Cidadãos com 'C' maiúsculo,
não cidadãos comuns, que não têm responsabilidade
pelo que acontece ao redor. Pois é no dia-a-dia que se constróem
outras possibilidades de realidade social.
No domingo, dia
12 de fevereiro, por exemplo, na partida de futebol entre o Grêmio
e o Guarani de Venâncio Aires, o narrador fez um feliz comentário
e que expressa um pouco o que penso: comentou que havia uma faixa junto
na torcida do meu clube dizendo "Treino é treino" e
"Jogo é guerra", ao que discordou e apontou a incitação
à violência ali expressa. Essa ação do narrador
não parte de uma autoridade, resulta de conduta profissional,
ética, de alguém que tem responsabilidade com a não-violência.
Ano passado, outro
exemplo, outras Cidadãs e Cidadãos, de diversas Ongs,
conseguiram que o Congresso aprovasse a lei conhecida como "Maria
da Penha", que criou mecanismos para coibir a violência doméstica
e familiar contra a mulher, inclusive com a criação dos
Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher,
aumentando a segurança para as denunciantes e o tempo de reclusão
dos condenados. Maria da Penha Maia, professora universitária,
começou a atuar em movimentos sociais contra violência
e impunidade, depois de ficar paraplégica (vítima de tentativas
de homicídio de seu ex-marido), e hoje é coordenadora
da Associação de Parentes e Amigos de Vítimas de
Violência (APAVV) no Ceará. Existe sim muito o que se fazer,
só que dá mais trabalho que só se queixar.
O Instituto Amigos
de Lucas tem estimulado o Apadrinhamento Afetivo, prática que
busca apoiar fraternalmente crianças e adolescentes que nossa
sociedade tem legado a falta da família e que vivem em abrigos
no estado. Em todo país existem ações, muitas invisíveis,
de pessoas comuns, mas Cidadãos, ávidas na promoção
de uma sociedade menos violenta. E uma sociedade menos violenta se faz
com a defesa de direitos, mesmo em épocas de crise como a que
vivemos, onde os sistemas mostram suas falhas e podemos nos por em movimento
para suas correções. Nas salas de aula, em nossas casas,
praças, etc sempre há o que se fazer como atores principais
de mudanças no cotidiano (sem as mágicas inexistentes
do instantâneo), que firmam alicerces seguros para um futuro nem
tão distante, se diminuirmos o número de cidadãos
comuns.
*Estudante de Ciências
Sociais/UFRGS e Membro do Conselho Deliberativo do NUCRIAD (Núcleo
de Estudos e Defesa dos Direitos de Crianças e Adolescentes)