PROTEÇÃO
À CRIANÇA NÃO PODE SER CALADA
Reflexão
sobre abordagem da exploração sexual no Brasil
José
Carlos Sturza de Moraes *
Quando nos aproximamos
da data mais significativa para a denúncia e reflexão
de bárbaras ações contra crianças e adolescentes:
o 18 de maio, dia nacional de luta contra a exploração
sexual de crianças e adolescentes, nos tomamos de indignação
pelo covarde assassinato do jornalista Luiz Carlos Barbon Filho, por
encapuzados em Porto Ferreira/SP, no último dia 05 de maio.
A indignação
é pelo fato de alguém ter morrido, antes do fim natural
de seus dias aqui na terra, e deixado esta vida provavelmente, a se
confirmarem as investigações, por denunciar pessoas e
organizações envolvidas com o crime – e em especial
com o aliciamento de crianças e adolescentes para a exploração
sexual naquela cidade.
A denúncia
de Bardon Filho, em 2003, revelou esquema de aliciamento de crianças
e adolescentes envolvendo empresários e vereadores do município
paulista, que incluia também ameaças as famílias
das vítimas. Na época, segundo o Ministério Público/SP,
os criminosos faziam festas regadas a sexo, álcool e drogas em
chácaras nas quais crianças e adolescentes com idades
entre nove e 17 anos eram estupradas ou exploradas sexualmente (recebiam
para o 'serviço').
Mas tão grave
quanto a denúncia do jornalista, que, naquele caso resultou em
prisões e proteção às crianças e
adolescentes envolvidos, é a constatação de que
a sociedade ainda é bastante conivente com esse tipo de bárbarie
humana. Um ano depois do fato, um dos vereadores reeleitos na cidade
era um parlamentar que não tomou posse, pois estava preso em
Sorocaba. E ele foi um dos vereadores mais votados. E mais, condenado
a 45 anos de prisão, conseguiu reduzir sua pena para dez anos,
e deixou a cadeia em novembro do ano passado, após cumprir apenas
quatro anos, por bom comportamento. Essa conivência social para
com a exploração sexual de crianças e jovens deve
ser enfrentada com maior reflexão de nossas práticas sociais
existentes e suas relações com os discursos mais avançados
em termos de direitos humanos e arcabouço legal. Em não
procedendo assim estaremos mantendo práticas de intervenção
social que não mudam a realidade que, infelizmente, é
de grande violência e desrespeito pelo outro – e não
poupa nem as crianças neste país de guerra civil pelos
efeitos da desigualdade social que vivemos nestes vários séculos.
A morte de Luiz
Carlos Barbon Filho, assim como a de Tim Lopes e tantos outros, não
pode ficar impune. E deve ser alvo de homenagem nas atividades que se
realizarão de norte a sul do Brasil em função do
18 de maio, Dia Nacional de Luta Contra a Exploração Sexual
de Crianças e Adolescentes. O 18 de maio é marco da luta
contra o abuso e a exploração sexual no Brasil porque,
em 1973, em Vitória (ES), outro crime bárbaro chocou o
país. A menina de 8 anos de idade, Araceli Cabrera Sanches, foi
raptada, drogada, estuprada, morta e carbonizada por jovens de classe
média alta daquela cidade. E apesar de sua natureza hedionda,
esse crime prescreveu impune.
* Ex-Conselheiro
Tutelar de Porto Alegre (1995/2001), Co-Autor do livro "Conselhos
Tutelares - impasses e desafios, a experiência de Porto Alegre"