Atirador
da Virginia era vítima de ´bullying´, dizem colegas
Sotaque sul-coreano e timidez tornavam Cho motivo de chacota durante
aulas
BLACKSBURG, Estados Unidos - Muito antes de massacrar 32 pessoas e se
suicidar na pior chacina em uma instituição de ensino
na história dos Estados Unidos, o atirador da universidade Virginia
Tech, Cho Seung-Hui, foi intimidado por colegas quando estava no ensino
médio, vítima de um fenômeno conhecido por psicólogos
como "bullying".
O sul-coreano
Cho era atormentado por alunos que caçoavam de sua timidez e
de seu modo estranho de falar (com um sotaque de seu idioma original),
disseram ex-colegas de classe.
Chris
Davids, aluno da Virginia Tech que se graduou no colegial com Cho em
2003, relembra que o sul-coreano quase nunca abria a boca e ignorava
quando alguém tentava puxar conversa.
Uma
vez em uma aula de inglês, a professora pediu aos estudantes que
lessem em voz alta e, quando foi a vez de Cho, ele apenas olhou para
baixo em silêncio, disse Davids. Finalmente, após a professora
ameaçá-lo de reprovação, Cho começou
a ler com uma voz estranha, profunda e que soava "como se ele tivesse
alguma coisa na boca", afirmou Davids.
"Assim
que ele começou a ler, a classe toda riu e apontou pra ele, dizendo
´volte pra China´", lembrou Davids, explicando uma
das situações constrangedoras pela qual o garoto passou.
Stephanie
Roberts, 22, ex-colega de classe de Cho no colegial, disse que nunca
presenciou nenhum ato constrangedor a Cho cometido por colegas. "Eu
só me lembro dele como um garoto tímido que não
queria falar com ninguém", disse. "Eu acho que um monte
de gente sentia que havia uma barreira de idiomas".
"Mas
haviam algumas pessoas que realmente eram malvadas com ele e que zombavam
dele e davam risada", disse Roberts. "Ele não falava
inglês bem, e todos riam dele".
A estudante
da Virginia Tech Alison Heck disse que uma colega de quarto, Christina
Lilick, achou um misterioso ponto de interrogação no seu
quarto, na porta. Lilick ia à mesma escola que Cho. Na primeira
aula de literatura, a professora pediu que os alunos escrevessem seus
nomes em uma etiqueta e colassem na camiseta. Cho colocou apenas um
ponto de interrogação, e começou a ser chamado
apenas como "o garoto ponto de interrogação".
Vídeo
Os depoimentos de colegas ajudam a traçar o perfil psicológico
do assassino, e podem ajudar a decifrar os propósitos do garoto
no vídeo enviado à NBC durante seu crime.
No
vídeo, Cho se mostra perseguido e irritado com garotos ricos.
"Sua Mercedes não era o bastante", disse. "Suas
jóias de ouro não eram o bastante, seus esnobes. Sua vodca
e seu conhaque não eram o bastante. Todas suas festas não
eram o bastante. Essas coisas não foram suficientes para preencher
suas necessidades hedonistas. Vocês tinham tudo".
"Vocês
tinham cem milhões de chances e meios de evitar esse dia",
disse Cho no vídeo. "Mas vocês decidiram cuspir meu
sangue. Vocês me encurralaram num canto e me deram apenas uma
opção. A decisão foi de vocês. Agora vocês
tem meu sangue em suas mãos, que nunca será limpo".
Notícia
publiicada no site O Estadão a partir da Associated Press