Crianças
e adolescentes usados como soldados ou explorados sexualmente são
formas gravíssimas de trabalho infantil, veja a reprodução
da entrevista de Ishmael Beah, menino-soldado em Serra Leoa e que lançou
agora o livro com seus relatos: "Muito
longe de casa", dada ao Jornal Folha de São Paulo
FOLHA
- Qual era a tática utilizada pelas forças em guerra para
aliciar crianças como você?
BEAH - Um dos fatores necessários é que tenha sido destruído
tudo o que a pessoa conhecia. O segundo é a coação.
Eles não estão lhe dando uma escolha de entrar para o
grupo. Se você não entrar, você morre. Eles lhe dão
todos os tipos de droga e você também fica traumatizado
por ser exposto a tantas mortes violentas. Eles fazem você assisti-los
matando como uma maneira de torná-lo cúmplice dessa loucura
e eles forçam você a fazer as mesmas coisas horríveis.
A vida se torna somente isso. Até o ponto que o grupo se torna
a família para você.
FOLHA
- Como você se sentiu ao ser resgatado pelo Unicef?
BEAH - No começo eu estava muito triste e irritado. Todos estávamos.
Com toda a lavagem cerebral, eu passei a acreditar que eu fazia parte
daquele grupo, até o fim. É preciso muito trabalho para
desfazer a lavagem cerebral.
FOLHA
- Como foi visitar Serra Leoa no ano passado?
BEAH - Foi muito bom estar de volta, ver amigos, primos. Mas foi difícil
ver o que a guerra fez, os estragos, os resquícios dela. E também
ver um monte de jovens que não têm o que fazer com suas
vidas. Essas coisas me deixaram bastante triste.
FOLHA
- Por que você decidiu escrever o livro?
BEAH - Eu já participava de encontros na ONU nos quais eu contava
minha experiência. Mas aí eu percebi que nunca era o suficiente.
Eu queria escrever algo e colocar um aspecto humano. Porque em geral,
quando as pessoas falam desses lugares, elas falam como se todos naquele
país sempre tivessem sido loucos e violentos. Que aquilo nunca
foi um país antes da guerra. Eu queria mostrar aos leitores como
a humanidade foi tirada das pessoas durante a guerra.
FOLHA
- Você visitou recentemente o morro do Vidigal, no Rio. Há
uma semelhança da situação das crianças
envolvidas com tráfico de drogas no Brasil com a que você
viveu em Serra Leoa?
BEAH - Mesmo que nas favelas do Brasil não seja uma situação
de guerra como era no meu país, as razões que levam as
crianças a fazer esse tipo de coisa são muito similares.
Você cresce em lugares onde não há opção.
Não existe uma oportunidade econômica e a violência
se torna uma opção. É como quando, na guerra, você
perde sua família, perde tudo, e você não tem nada
o que fazer da sua vida. As pessoas o podem manipular facilmente; eu
acho que é a mesma situação.